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Um mosaico de escamas desenha a bandeira do Brasil no céu amazonense
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O mosaico da cúpula do Teatro Amazonas 

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“Aleijão, monstruosidade, papagaio”. Foram as imagens que o Jornal do Amazonas encontrou ao final do século XIX para criticar  a cúpula que coroava o Teatro Amazonas, inaugurado em 1896, abrigando um mosaico ao seu redor, construído com 36 mil escamas de cerâmicas vitrificadas.

 

As escamas estilizam a bandeira brasileira e dão ao teatro a mesma função da cúpula da Ópera de Paris, assinalando a presença de uma casa de espetáculos em seu interior. Mas a proposta estética foi muito mal recebida pela população que se enfureceu com a interferência do colorido exuberante no padrão arquitetônico do conjunto. Muitos compararam a cúpula a uma cobertura de mesquita, havendo ainda hoje quem acredite que a estrutura tenha vindo de algum país mulçumano.    

Pois a verdade é que a armação de ferro veio inteirinha da Europa e  as escamas verde-amarelas da cúpula foram todas produzidas  na França tornando-se hoje um cartão postal da cidade de Manaus.

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Mas na época da construção, Manaus era uma cidade provinciana, com menos de cem mil habitantes, e comandada pelos barões da borracha que queriam impregná-la com o que havia de mais luxuoso na Europa. O projeto arquitetônico foi feito pelo Liceu de Engenharia de Lisboa e a decoração interna confiada a artistas brasileiros (Crispim do Amaral, o principal) e estrangeiros (Domenico de Angelis, Silvio Centofanti, Francesco Alegiani, entre outros).

 

A obra do Teatro Amazonas foi iniciada em 1884, ao tempo do Império, o que talvez explique, em boa parte, a insatisfação da população com a opção   pelos padrões da nova bandeira republicana exibidos no mosaico da cúpula, durante os primeiros anos que se seguiram à queda do Imperador, nos governos dos marechais Deodoro e Floriano Peixoto, de grande inquietação política.

 

Outro mosaico também vai testemunhar a epopéia da construção do Teatro. Em frente ao canteiro de obras, na Praça São Sebastião, foram realizadas as primeiras experiências com mosaico-calçada, importando-se as pedras de Portugal pelo menos dez anos antes de medida idêntica adotada para o calçamento da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Curiosamente, o desenho escolhido foi também o de ondas, semelhantes ao que se empregaria no calçadão de Copacabana. Muitos anos depois,  a justificativa para o desenho foi atribuída ao encontro das águas do Rio Negro com o Solimões, que ocorre próximo à cidade. Essa suposta inspiração não procede nem condiz com os fatos.

 

 

No Rio de Janeiro a voz corrente também pretendeu atribuir as ondas a um certo paralelismo com as ondas do mar. Nos dois casos há um equívoco. No Rio de Janeiro, as ondas desenhadas pelos calceteiros portugueses na primeira década do século XX  eram perpendiculares às ondas do mar, o que já diz tudo. E, em Manaus, o desenho original não tinha qualquer pretensão além do calçamento da Praça São Sebastião. O piso em Manaus tanto quanto o de Copacabana eram semelhantes no desenho primordial que os calceteiros portugueses aplicaram na Praça do Rossio, em Lisboa. Em Portugal, pelo menos, ninguém dizia na época da construção dos primeiros pisos em mosaico-calçada que o desenho era inspirado no encontro das águas do Rio Tejo com o Oceano. De algum tempo a esta data, por puro mimetismo, já há registro de algumas vozes portuguesas invocando esse paralelismo. Fazer o quê?

A opção pelas pedras portuguesas veio substituir o calçamento irregular com pedras da região que até então se fazia em Manaus. A discussão sobre o calçamento da cidade cresceu com a construção do Teatro. Desde 1884, os jornais da cidade já comentavam o assunto.  A cantaria foi feita a partir das pedras locais, junto às quedas de água do bairro da Cachoeirinha e na antiga rua da Pedreira obtinham-se as pedras toscas para calçamento,  escreveu o historiador Mário Ypiranga Monteiro, o maior conhecedor da história da construção do Teatro. Em 2004, quando telefonei para consultá-lo sobre fatos relacionados ao Teatro,  ele estava completando 96 anos de idade. Sua fala claudicava mas não traia a lucidez de quem sempre foi íntimo ao tema.

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Ypiranga foi um conhecedor profundo da história da Amazônia em geral e da construção do Teatro em particular. Ele negava, taxativamente, que o grande tenor Enrico Caruso tivesse pisado o Teatro Amazonas.  “Nem ele, nem Sarah Bernard, nem Eduardo Brazão atuaram em qualquer época em Manaus”, advertia. Quando o cineasta alemão Werner Herzog rodou em Manaus o filme Fritrzcarraldo, o historiador foi procurado pelo diretores da película, aos quais disse que seria balela a "figuração" daqueles artistas na cidade. Eles responderam que iriam colocar Caruso no filme por “questões comerciais”, explicou Ypiranga Monteiro.  “É dessa forma que uma mentira se propaga, contra a dignidade da História. Aliás, o filme é uma droga”, reagiu.

 

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Enfim, o Teatro tornou-se, desde a construção, um marco de polêmica e controvérsia na vida de Manaus.  Seu custo foi avaliado em 3,3 milhões de dólares ao tempo de sua inauguração — a mais faraônica obra da História do Brasil, com painéis, centenas de lustres de cristal veneziano, colunas de mármore de várias cores, estátuas de bronze assinadas por grandes mestres, espelhos de cristal, jarrões de porcelana , tapetes persas e mosaicos franceses.

 

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Em 1912, 16 anos depois, tudo desapareceu, denuncia o também historiador Rogel Samuel. O Teatro foi transformado em  depósito de borracha de uma firma americana. Foi restaurado mais tarde em 1929 e atravessou outros momentos de crise e decadência, passando por reformas sucessivas em 1962, em 1974, em 1985 e em 1990. Foi o primeiro monumento tombado em Manaus pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nos idos de 1966.

Entre as inúmeras obras de arte e materiais sofisticados de sua arquitetura e decoração interior, há dois itens eloqüentes e lamentáveis sobre os quais o professor Mário Ypiranga Monteiro discorre com certa amargura. Trata-se da questão referente a aquisições de pedra para lajedo ao redor do Teatro  e dos mosaicos para pavimentação e revestimento parietal em seu interior .

 

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“Todo o lajedo ainda existente em torno do Teatro Amazonas, chamado pedra liós de Lisboa (calcário e não mármore propriamente dito) foi adquirido naquela cidade ao preço corrente de trinta e três mil réis o metro quadrado, incluindo bordadura. Os mosaicos, de que nada mais resta, pilhados durante vários governos, vieram por negociação com a Casa Koch-Frères, fabricados especialmente na França, cerca de 486 metros quadrados. Foram colocados no interior do Teatro Amazonas (saguões, sanitários, etc.) à razão de quinze mil réis o metro quadrado. Preço: dez contos de réis”.

 

FOTO HISTÓRICA DO TEATRO AMAZONAS
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POUCO DEPOIS DA INAUGURAÇÃO

 A foto abaixo já faz parte da história de Manaus. Trata-se da Praça São Sebastião, logo que seu calçamento em pedras portuguesas foi concluído, antecedendo em mais de uma década a aplicação desse tipo de calçadas no Rio de Janeiro. O suposto paralelismo com o encontro das águas do Rio Negro com o Rio Amazonas foi "elaborado" depois que se mitificou o calçamento da orla de Copacabana. O mesmo fenômeno começa a ser observado em Portugal onde alguns lisboetas pretendem que o calçamento original da cidade, surgido na segunda metade do século XIX, teria origem no encontro do rio Tejo com o mar.
Ora, pois pois...
 
hgougon, março de 2010

FOTO DA PRAÇA S. SEBASTIÃO NA INAUGURAÇÃO
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A PRAÇA FICA DEFRONTE O TEATRO AMAZONAS