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Carlos Scliar: a guerra acabou

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Painéis de JK
Calçadas de pedras portuguesas em Copacabana
Mosaicos da Imperatriz Teresa Cristina
Mosaicos romanos da Síria
Graciano, o modernista de Sampa
Um projeto de mosaico poético para Brasília

SUMMARY

Carlos Scliar is one of the greatest names in Brazilian plastic arts in the 20th Century. He passed away in 2001 and, among the many works he left, there are two projects for mosaic that have never been made: the Rise of the Warsaw Ghetto (ordered by the Brazilian Israeli Federation) and a panel ordered by architect Oscar Niemeyer for Brasília, in which the artist conceived a work adorned by signs and symbols of the African-Brazilian rites. There is still hope for their completion nowadays.

 

As obras musivas de Carlos Scliar à espera de execução: a guerra não acabou!

Da rica trajetória de vida do artista gaúcho Carlos Scliar, o episódio que mais mexe com meus sentidos e emoção é o seu alistamento na FEB (Força Expedicionária Brasileira) e sua participação na II Guerra, combatendo os ocupantes alemães nos campos da Itália. Meu Deus, como pôde um artista, uma alma sensível como Scliar, passar seus dias de arma na mão, enfrentando o drama, as misérias e os horrores de uma conflagração sinistra?

 

É muito difícil entender como construiu sua carreira artística depois de tantas provações, mas o fato é que Scliar sobreviveu ao pior e ainda realizou nos intervalos das batalhas uma série de desenhos e pinturas de naturezas mortas e retratos de camponeses. “Eram a visão de uma pessoa que mostra o lado humano, nunca o lado guerreiro – explicou, durante uma entrevista concedida em 1997 ao boletim Verde-Oliva, editado pelo Exército brasileiro.

“Tinha a consciência de que estava fazendo uma coisa humana - afirmou. - Isso foi tremendamente importante para mexer com a minha cabeça. Todo jovem é dono da verdade. Aí eu comecei a ficar dono da dúvida. Hoje, acho que todo dia tenho de reaprender”.

Projeto de Scliar para mosaico, nunca realizado
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Obra forte do artista, do tempo da guerra

Scliar sempre foi um homem doce, terno e sensível. É no mínimo chocante imaginá-lo em campo de batalha. Guardo um artigo do poeta Ferreira Gullar, publicado em 30 de abril de 2001, por ocasião de sua morte, em que mostra espanto com sua trajetória precoce:

 

“Aos 18 anos já ajuda a fundar a Associação de Artistas Plásticos de Porto Alegre, aos 20 anos muda-se para São Paulo e participa do último salão da Família Artística Paulista; aos 23 está na frente de batalha, na Itália, como integrante da Força Expedicionária Brasileira. E esse começo de vida já nos revela o Scliar do futuro: artista imbuído da importância social da arte e ao mesmo tempo o ativista, o cidadão convencido de que devia ajudar a mudar o mundo”.

Enfim, o artista teve uma vida fecunda e surpreendente, não apenas pela participação na Itália,  mas sobretudo pela vastidão de sua arte e pela coleção gigantesca de amigos que fez ao longo da carreira, dentre os quais sobressaem nomes como o do cronista Rubem Braga, do diplomata Vinícius de Morais, do romancista Jorge Amado, do escritor Mário de Andrade, e de todos os grandes nomes artísticos de seu tempo, de  Guignard a Di Cavalcanti, de Pancetti a Djanira, entre muitos, muitos outros.

 

Ao final da guerra, retornou ao Rio Grande do Sul, sua terra natal, e ali fundou o clube da Gravura, juntamente com Glênio Bianchetti, Danúbio Gonçalves, Glauco Rodrigues e Vasco Prado. O clube rompeu pela primeira vez com o isolamento da arte gaúcha, projetando sua expressão fora do Rio Grande do Sul. Em 1956, Scliar fixou residência no Rio de Janeiro e dois anos depois, já dirigia a programação visual da revista Senhor, a mais revolucionária experiência gráfica e editorial brasileira, em que embarcaram os melhores nomes do jornalismo e da crônica brasileira.

 

O que se vê ao longo da carreira é que ele participa de tudo que é importante ao seu tempo. Chegou a filiar-se ao Partido Comunista, levado por aquele impulso natural na época, que vislumbrava na pregação marxista as melhores chances para a construção de um mundo sem desigualdades e com oportunidades para todos.

 

Painel para mosaico
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VISÃO DO GUETO DE VARSÓVIA

Ao longo dos anos 50 Scliar também vislumbra um grande alcance artístico na nova linguagem plástica que começava a crescer, atraindo os modernistas e abrindo um espaço de renovação capaz de dar novas características às obras murais. Era a arte do mosaico, que àquela altura, já era empregada pelos grandes muralistas mexicanos, como Diego Rivera, Orozco e Siqueiros.

 

Em 51, recebeu convite para realizar um mural sobre o Levante do Gueto de Varsóvia, encomendado por uma federação israelita. Scliar decidiu fazer a obra em mosaico e elaborou o projeto com detalhamento de tessela por tessela, indo muito além do que faziam seus colegas nessa área. Mas a obra nunca chegou a ser realizada porque não houve acordo sobre o custo de execução.  O cartão para mosaico existe e está bem guardado com o filho único do artista, Francisco Scliar, envolvido até a medula com a preservação da obra do pai e com o funcionamento do Instituto Cultural Carlos Scliar, tendo como base os ateliês do artista instalados em Cabo Frio e em Ouro Preto.

 

Além do trabalho encomendado pela federação israelita, Scliar produziu um segundo projeto para mosaico que, da mesma forma, não foi executado. A obra fora encomendada por Oscar Niemeyer em 1958, quando projetava a construção do Hotel Brasília Palace (que acabou pegando fogo no início dos anos 70, destruindo tudo em seu interior). Por indefinição do primeiro presidente da Novacap, Israel Pinheiro, a execução da peça foi sendo protelada até que o Hotel ficou pronto sem a contratação da obra. Um desgosto na vida do artista. Mais de 20 anos após o incêndio, um empresário de Brasília do ramo da construção civil, Paulo Octávio, que é vice-governador da capital federal, adquiriu a área e reconstruiu o Hotel à imagem e semelhança do que era antes, sem levar em consideração o projeto de Scliar, que nem chegou a ser cogitado.

 

Por gentileza de Francisco Scliar, que preserva o cartão para mosaico concebido pelo pai, apresento aqui a obra inédita do artista. Trata-se de um projeto com figuras e signos próprios dos ritos afro-brasileiros, o que revela um percurso novo, apresentado por Carlos Scliar pelo menos dois anos antes que seu colega, Rubem Valentim, o trilhasse e o explorasse à exaustão.

OBRA ANTECIPA TEMAS DE RUBEM VALENTIM
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PAINEL ERA DESTINADO AO HOTEL BRASILIA PALACE QUE PEGOU FOGO

Além do trabalho encomendado pela federação israelita, Scliar produziu um segundo projeto para mosaico que, da mesma forma, não foi executado. A obra fora encomendada por Oscar Niemeyer em 1958, quando projetava a construção do Hotel Brasília Palace (que acabou pegando fogo no início dos anos 70, destruindo tudo em seu interior). Por indefinição do primeiro presidente da Novacap, Israel Pinheiro, a execução da peça foi sendo protelada até que o Hotel ficou pronto sem a contratação da obra. Um desgosto na vida do artista. Mais de 20 anos após o incêndio, um empresário de Brasília do ramo da construção civil, Paulo Octávio, que é vice-governador da capital federal, adquiriu a área e reconstruiu o Hotel à imagem e semelhança do que era antes, sem levar em consideração o projeto de Scliar, que nem chegou a ser cogitado.

 

Por gentileza de Francisco Scliar, que preserva o cartão para mosaico concebido pelo pai, apresento aqui a obra inédita do artista. Trata-se de um projeto com figuras e signos próprios dos ritos afro-brasileiros, o que revela um percurso novo, apresentado por Carlos Scliar pelo menos dois anos antes que seu colega, Rubem Valentim, o trilhasse e o explorasse à exaustão.

DETALHE DO PAINEL PROJETADO POR SCLIAR
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OBRA CONTINUA ATUAL E PODERIA SER EXECUTADA A QUALQUER TEMPO