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Com Waltércio Caldas, as pedras portuguesas vão ao céu

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postos da Petrobrás na Av. Atlântica
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as pedras portuguesas são a pele do Rio

Na direção do céu
 

 

    "O mosaico reencontra hoje, na arquitetura, sua razão de existir"

                              Ricardo Licata, mestre mosaicista italiano

        Ainda não se fixou uma tendência, mas já é possível chamar atenção para as chances que se abrem à realização de mosaicos parietais com uso de pedras portuguesas na forma de revestimento vertical. A primeira aparição desse gênero na arquitetura brasileira, ao que parece, deu-se nos postos da Petrobrás ao longo da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. Remodelados há coisa de dez anos, todos eles apresentam, nas paredes da casa de administração, revestimentos semelhantes aos mosaicos do calçadão na forma ondulada que se transformou numa marca de Copacabana. Já faz parte habitual do cenário carioca e dá um certo charme aos postos de gasolina. Alguns já foram até mesmo batizados com a inevitável e deletéria pichação que assola os logradouros públicos em toda parte do mundo.

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Em 1997, o artista vanguardista Waltércio Caldas teve a grande sacação de que o mosaico em pedra portuguesa representa a "pele" do Rio de Janeiro e, como tal, mereceu de sua parte uma escultura que batizou de forma singela e direta: "escultura para o Rio de Janeiro" erguida na avenida Beira Mar, defronte ao prédio do Museu de Arte Moderna (MAM) (foto). Com a proposta, o artista afirma o movimento natural da "pele" da cidade de crescer na mesma direção vertical dos prédios cariocas. A escultura consiste em dois pilares envolvidos pelas pedras portuguesas que crescem em direção ao céu. Sua construção em frente ao MAM não foi aleatória. De certa forma, traduz a intenção de colocar-se como um marco da arte contemporânea do outro lado da rua do templo carioca da arte moderna, o "Museu" de Arte Moderna .

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       A questão, porém, não é tão nova quanto parece. Outra artista nem tão contemporânea, a ceramista portuguesa Maria Keil, nascida em 1914, foi buscar na mesma linguagem das pedras de calçada-mosaico inspiração para realizar diversos painéis com os quais decorou as paredes da centenária Cervejaria Trindade, em Lisboa, nos idos de 1947. Tendo abraçado desde cedo a carreira artística, tornou-se uma expressão ilustre em Portugal no campo das artes visuais durante todo o século XX. Grande parte das estações do metrô lisboeta abriga seus trabalhos, especialmente os de cerâmica, cujos desenhos guardam um certo paralelismo com algumas produções plásticas de Athos Bulcão e de Burle Marx. Maria Keil foi responsável por uma verdadeira revolução na azulejaria portuguesa a partir dos anos 50, quando veio ao Brasil e tomou contato com as obras de Portinari, especialmente as da Pampulha, inaugurada dez anos antes. Suas obras na Cervejaria Trindade guardam um acento cubista, tardio para a época.

 

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Obra de Maria Keil em 1947 na Cervejaria Trindade
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Maria Keil é a maior ceramista de Portugal

painel de Burle Marx na entrada do Souza Aguiar
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 A meu ver, o mais importante é que a opção pela utilização vertical das pedras portuguesas antecipa um movimento importante que tanto ela, nos anos 40, quanto Waltércio Caldas, nos anos 90, desvelam com a espantosa premonição dos grandes artistas, apontando caminhos que vão muito além dos que foram abertos pela calçada-mosaico na pavimentação das áreas públicas nos últimos cem anos.

 

O paisagista Roberto Burle Marx também tirou partido precoce dessa possibilidade, realizando obras de arte com as pedras portuguesas, envolvendo nichos de pedras semi-preciosas, nas paredes internas do Hospital Souza Aguiar, no Rio de Janeiro. Tornou a empregar verticalmente as pedras portuguesas nos muros adjacentes ao Edifício Parque Cultural Paulista, no início da Avenida Paulista, em São Paulo. No mural, abriu espaços no conjunto das pedras para abrigar plantas decorativas, que despencam do mosaico parietal.

 

 

       Pois é justamente neste momento de percepção artística do uso absolutamente novo da pedra portuguesa nas paredes e nos muros que o mosaicista José Carlos Menezes, de Brasília, devotado à pesquisa do mosaico em todas suas possibilidades, descobriu um caminho surpreendente que permite avançar ainda mais na disseminação deste tipo novo de revestimento musivo. Ele simplesmente corta as pedras portuguesas com disco diamantado (profissional) laminando-as em torno de 8 mm de espessura, o que permite, no limite, revestir até mesmo prédios de muitos andares com os mesmos tipos de desenho que são conseguidos no chão.

Pedra portuguesa no balcão de José Carlos Menezes
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A laminação da pedra portuguesa amplia as possibilidades de seu uso em revestimento vertical

José Carlos Menezes adotou o mosaico de tal maneira que investiu na construção de um espaço cultural integralmente dedicado à arte (o José-Espaço&Mosaico, localizado na Vila Planalto, em Brasília). A partir dali, traçou um projeto para realização de um balcão na área externa de mansão no Lago Sul, que executou em 2002, valendo-se do procedimento de laminação das pedras portuguesas que, a meu ver, abre uma perspectiva nova para a arquitetura, de realização conjugada com a obra musiva e conferindo a esta um sentido inequívoco de complementaridade daquela.

 

A atitude de José Carlos viabiliza essa idéia, a meu ver revolucionária, da verticalização das pedras portuguesas e me traz à cabeça uma reflexão recolhida do mestre italiano Ricardo Licata, responsável pela renovação, nas últimas décadas, do estudo da arte musiva na França: “O mosaico reencontra hoje, na arquitetura, sua razão de existir”.